O governo brasileiro formalizou, no dia 31 de março, a candidatura do forró tradicional ao título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade junto à UNESCO. A proposta, que poderá ser analisada para inscrição a partir de 2027, foi articulada pelo IPHAN, com apoio do Ministério da Cultura e do Ministério das Relações Exteriores.
O reconhecimento internacional é um desdobramento de um processo iniciado há anos no Brasil. Em 2021, o forró já havia sido registrado como Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro pelo IPHAN, consolidando oficialmente sua importância como manifestação que articula música, dança, modos de fazer e práticas sociais profundamente enraizadas, sobretudo na região Nordeste.
O chamado “forró tradicional” abrange uma diversidade de ritmos e formas, como o baião, o xote, o xaxado e o arrasta-pé. Essas variações compartilham elementos estruturais e simbólicos, como o protagonismo da sanfona, da zabumba e do triângulo — formação consagrada nos trios de forró, base instrumental que se tornou símbolo do gênero — além da forte relação com festas populares, ciclos juninos e contextos comunitários. Esses trios, difundidos especialmente a partir da atuação de Luiz Gonzaga (1912–1989), ajudaram a fixar uma sonoridade e um formato que atravessaram gerações.
A construção dessa linguagem passa por nomes incontornáveis como Luiz Gonzaga (1912–1989), Jackson do Pandeiro (1919–1982) e Dominguinhos (1941–2013), responsáveis por estruturar e difundir o forró em escala nacional, ao lado de formações fundamentais como o Trio Nordestino, o Trio Juazeiro e o Os 3 do Nordeste, que ajudaram a consolidar o formato do trio e sua sonoridade característica. Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer o protagonismo feminino nessa trajetória, muitas vezes sub-representado: Anastácia, autora de centenas de canções e parceira recorrente de Dominguinhos; Marinês (1935–2007), a Rainha do Xaxado; Clemilda (1936–2014), figura central do forró popular; e Elba Ramalho, responsável por ampliar a projeção do gênero a partir dos anos 1980.
Esse conjunto se amplia com artistas e instrumentistas de diferentes gerações, como Lucy Alves, além de mestres e mestras que atuam fora dos grandes centros e mantêm viva a tradição em contextos comunitários. O forró, nesse sentido, não se sustenta apenas por nomes consagrados, mas por uma rede contínua de transmissão cultural.
A candidatura à UNESCO exige um dossiê detalhado que demonstre não apenas a relevância histórica e cultural da manifestação, mas também as estratégias de salvaguarda já existentes. O Brasil destacou ações de preservação, circulação e ensino do forró, incluindo festivais, escolas de música, políticas públicas e iniciativas independentes que garantem sua continuidade.
Outro ponto central do processo é a comprovação de que o forró permanece como prática viva e dinâmica. Mesmo com raízes profundas, ele segue se reinventando em contextos urbanos e rurais, dialogando com novas gerações sem perder seus elementos estruturais. Essa vitalidade é um dos critérios valorizados pela UNESCO.
Caso seja reconhecido, o forró se juntará a outras expressões brasileiras já inscritas na lista da UNESCO, como o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, o Frevo e a Roda de Capoeira, ampliando a presença de manifestações ligadas à música e à dança no reconhecimento internacional.
A expectativa agora recai sobre a análise técnica e diplomática da candidatura. Enquanto isso, o processo já cumpre um papel importante: reforça, dentro do próprio Brasil, a necessidade de valorização cultural, memória e identidade — dimensões que o forró expressa de forma coletiva, diversa e continuamente renovada.
