A banda pernambucana Ave Sangria, um dos pilares do rock psicodélico brasileiro e um ícone da vanguarda cultural dos anos 1970, será indenizada pelo Estado brasileiro após ter sua trajetória interrompida pela censura da ditadura militar. A recente decisão da Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos, proferida em março de 2026, reconhece formalmente a perseguição política sofrida pelo grupo e estabelece um marco importante na reparação histórica de artistas vitimados pelo regime autoritário.Formada no Recife no início dos anos 1970, a Ave Sangria emergiu em um efervescente ambiente cultural, desenvolvendo uma sonoridade única que mesclava rock, experimentação e a liberdade de expressão da época.

A formação original contava com Marco Polo (voz), Ivson Wanderley (guitarra solo e violão), Paulo Rafael (guitarra, sintetizador e vocal), Almir de Oliveira (baixo), Israel Semente (bateria) e Agrício Noya (percussão). Em 1974, a banda lançou seu álbum homônimo pela gravadora Continental, um trabalho que rapidamente ganhou projeção nacional e se tornou um clássico cultuado, mas que teve seu voo interrompido de forma abrupta.O cerne da censura recaiu sobre a canção "Seu Waldir", composta por Marco Polo. A letra, que expressava uma declaração de amor de um homem para outro ("Seu Waldir, o senhor não sabe o quanto eu lhe quero bem..."), foi considerada "atentatória à moral e aos bons costumes" pelos censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), órgão ligado à Polícia Federal.

Em um período de intensa repressão, a música, que já fazia sucesso nas rádios do Recife, foi proibida, e o disco foi recolhido das lojas apenas um mês e meio após seu lançamento. O impacto da censura foi devastador. A banda, que vivia um momento de ascensão, teve sua carreira desestruturada, enfrentando prejuízos financeiros e a interrupção de sua atividade artística.

Além da proibição do disco e da execução nas rádios, os integrantes da Ave Sangria foram alvo de perseguição policial e vigilância constante, o que culminou na dissolução precoce do grupo entre 1974 e 1975.

Relatos dos músicos apontam para consequências emocionais profundas decorrentes da repressão, que se estendeu ao cotidiano e inviabilizou a continuidade do trabalho.A decisão da Comissão de Anistia, proferida em março de 2026, representa um reconhecimento tardio, mas fundamental, da injustiça cometida. A reparação inclui um pedido formal de desculpas do Estado brasileiro, o reconhecimento da perseguição política e da interrupção da carreira artística, além de uma pensão mensal e vitalícia para os integrantes vivos, Marco Polo e Almir de Oliveira. Familiares de membros já falecidos, como Ivson Wanderley, Paulo Rafael, Israel Semente e Agrício Noya, também receberão indenizações retroativas.

Esta é a primeira vez que uma banda inteira é anistiada coletivamente por censura artística no Brasil, sublinhando a gravidade e o impacto da repressão cultural da época.Embora a reparação não possa alterar o passado, ela estabelece um registro claro de que a repressão teve responsáveis, mecanismos definidos e impactos concretos sobre a história da criação artística no Brasil. A anistia da Ave Sangria honra a memória e a luta dos artistas, e serve como um lembrete da importância da liberdade de expressão e da vigilância contra qualquer forma de censura.

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